Arroz em cri$e

          Estamos passando por um período de crise no setor arrozeiro, com o grão de arroz tendo a sua cotação mais baixa dos últimos 15 anos.  Em 1997 se comprava óleo diesel à R$ 0,35/litro, enquanto que o arroz valia R$ 8,00/saco de 50 kg, ou seja, um saco de arroz comprava 22,86 litros de diesel.

          Passados 14 anos, o arroz está cotado à R$ 20,00 o saco de 50 kg e o diesel custa ao produtor algo em torno de R$2,00/lt. Logo, dá pra notar que um saco de arroz, compra 10 litros de diesel na cotação de hoje. Comparemos como caiu o poder aquisitivo do arroz de 14 anos pra cá. Absurdos 56,25 %! (Números fora de estatística oficial, mas de apontamento pessoal)

         Nesse meio tempo, houve uma supervalorização do petróleo e uma queda astronômica no preço do arroz, para ficar só no grão que comercializamos na fronteira-oeste. Estoques altos, produtividade aumentada e redução do consumo do grão são algumas das possíveis explicações que refletem nessa crise de hoje.

         Escrevo esse artigo no intuito de levar os leitores a um raciocínio e tentar fazê-los entender que as mudanças devem ocorrer primeiro em nossa mente, para depois mudarmos a situação.

         Se todos nós realizarmos a mesma tarefa, igual em todos os sentidos, haverá excesso de oferta no mercado com óbvia queda nos preços praticados. Simples. Todo mundo faz a mesma coisa, todo mundo tem resultado igual… Isso vale para o comércio. Imaginemos que nossa cidade tivesse somente lojas de sapatos. Seria uma guerra de preços e promoções, onde todos perderiam com certeza.

         Mas como mudar a realidade do setor arrozeiro se todos sabemos somente “plantar arroz”?

         Está aí justamente a chave do paradigma…

         É possível mudar a realidade de um setor inteiro?

         O que interessa são produtores satisfeitos e com rentabilidade, não é isso?

         Proponho que possamos todos ao analisar nossos negócios, pensar (nem que seja somente nesse nível de pensamento) em redimensionar nosso empreendimento agrícola, ou ainda em diversificar, pois estamos sobrevivendo somente da monocultura do arroz.

         Temos uma lavoura altamente tecnificada, com maquinário caríssimo e com pouca mão-de-obra qualificada. Ainda temos um novo endividamento, a partir de uma suba nos preços praticados há dois anos atrás quando a maioria dos produtores entendia ser a hora exata para investir. Agora com os preços em baixa, a conta aumentou em produto. Precisa-se de mais produto para quitar o débito, algumas vezes vencido.

         Outro item a levarmos em conta é que utilizamos muita água na irrigação do arroz. Dominamos essa tecnologia da inundação no arroz, mas não dominamos a irrigação. Poderíamos aprender como se irrigam outras culturas. Não seria uma saída?

         Poderíamos irrigar pastos para a nossa avançada pecuária de corte; poderíamos irrigar pastos para a nossa emergente pecuária leiteira. Poderíamos…

         Temos potencial para produzir outras culturas, ainda que tenham de ser irrigadas em nossa região. Só para citar exemplo soja, milho, sorgo, feijão, ervilha, lentilha, grão de bico, etc, são alguns grãos que se adaptam bem ao nosso pampa e uma vez irrigados, poderiam ser alternativas de produção e renda.  Mas observamos que ninguém pensa nisso, pois sabemos “somente plantar arroz”.

         Entendo como técnico da área, que a agricultura hoje deve ser encarada como um negócio, um empreendimento, justamente em função dos altos valores investidos na atividade. E se é negócio, tem de dar lucro a quem arrisca. Ou alguém aí tem R$ 1.800,00 para emprestar? Esse é o valor necessário para se plantar 1 hectare de arroz!

         Esse é o valor que os arrozeiros tem de sacar de seus bolsos para plantar um hectare. Não é justo que depois de tanto arriscar, que eles sofram com prejuízos. Mas de outro lado, existem alternativas mais baratas e que podem dar um resultado mais lucrativo do que está dando o arroz no momento.

         Cito o exemplo dos paulistas que quando o café deixou de dar lucro, exterminaram os cafezais e passaram para a laranja. Quando a laranja também caiu no mercado internacional, arrancaram os laranjais e mudaram para a cana-de-açúcar. Não quero com isso que haja uma debandada do arroz para outras culturas, mas gostaria que fôssemos mais abertos na busca de alternativas mais lucrativas, uma vez que deveríamos passar a encarar nossa atividade de forma mais empresarial, mais profissional. Estamos perdendo os melhores anos de nossas vidas, insistindo num grão que faz parte da cesta básica, subsidiada pelo governo federal (do Collor, do Sarney, do Itamar, do FHC, do Lula e agora da Dilma). Todos sem exceção querem uma cesta básica barata e pasmem, às nossas custas… Afinal de contas, cestas básicas baratas combinam com VOTO CERTO. Quem vive de votos?

         Outro fator que nos faz refletir nessa hora de crise do setor são os cruzamentos da legislação que somos obrigados a nos reportar.  NR’s do MTE, IBAMA, FEPAM, CONAB, Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Reserva Legal, com os licenciamentos ambientais, enfim, tudo o que nos é cobrado e temos de obrigatoriamente dar atenção, sob pena de termos nossos empreendimentos impedidos de operar, já que tudo isso está vinculado ao crédito rural.

         Ou alguém espera hoje, que o governo federal tome alguma atitude para nos defender?  - Sentemo-nos e aguardemos!

         Está na hora de nós, envolvidos no agronegócio de planejarmos melhor nosso futuro! Assim como está, muitos colegas da produção serão obrigados a abandonar a atividade, pois o prejuízo é certo.

         Acreditemos mais em nosso potencial produtivo e de trabalho! De novo, precisamos encarar a atividade agrícola como uma atividade profissional, que não tolera mais amadorismo.

         Afinal, somos ou não profissionais do setor?

         Reflito junto com todos, pois também dependo do arroz para sobreviver.  E isso me incomoda sobremaneira.

         Só para refletir…e quem sabe contribuir.

César Moutinho

Eng.Agrônomo

Diretor da AGROPEC

Referência em Pós-Colheita